Alexandre Higuchi

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Matéria tapa-buraco na Revista da Folha: “De susto em SUSTO”

Publicado por alehiguchi em 15/07/2005

Posted by Alexandre Kojima Higuchi on Jul 15, ’05 11:40 AM for everyone
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De tempos em tempos bate uma falta de assunto e criatividade em algum meio jornalístico e aparecem matérias meio sem sentido… Domingo passado foi a vez da Revista da Folha, preocupada com o relacionamento de pais e filhos, contar histórias e dar conselhos em cada situação.

Pois bem, se é para fazer algo para tapar buraco, vamos fazer direito. Visando ajudar esses pobres pais que nao sabem como criar os filhos hoje em dia, estou reproduzindo o texto original e dando a recomendação CORRETA para cada caso…

Vamos a eles… Meus comentários estão em vermelho.

—-

De susto em SUSTO
por Débora Yuri
ilustrações Adriana Mayumi Ito

Um velho poeta libanês alertava: não tentem controlar seus filhos, pois “suas almas moram na mansão do amanhã”, um lugar que os pais não podem visitar nem em sonho. Khalil Gibran escreveu isso em 1923, quando não só os tempos, mas também pais e filhos eram muito diferentes. 

A busca pelo controle puro e simples perdeu espaço na educação moderna e formar crianças preparadas e felizes virou a meta. Para os pais de hoje, o papel ficou bem mais complicado.

Com o “amanhã” chegando cada vez mais rápido, não é preciso ter um filho-problema para encarar desafios a cada dia. Os sustos surgem de questões cotidianas, às vezes só recicladas por uma tecnologia mais moderna. 

”Nós não estamos preparados para acompanhar essa geração. Temos que correr para conseguir discutir com eles tudo que está acontecendo e ter todas as informações que eles já têm”, resume uma das mães que narraram experiências e dúvidas à reportagem.

Com base nessas histórias, e sem identificar os envolvidos, a Revista pediu a dois especialistas em educação familiar –a psicanalista Miriam Debieux Rosa, do Instituto de Psicologia da USP, e o psicólogo Miguel Perosa, da PUC-SP– que avaliassem não só a atitude das crianças, mas também a reação dos pais. 

O resultado sugere que há menos razões para sustos e surpresas do que imaginam os adultos.

Barrados no quarto


“Eu e meu marido temos uma relação aberta com nosso filho de 12 anos, sobre qualquer questão, incluindo sexo e drogas. Mesmo assim, ele me assusta com a forma simples como resolve alguns assuntos. 

Há algum tempo, ele percebia quando nós estávamos ‘namorando’ na sala e vinha de fininho ver o que estava acontecendo… Era uma correria. Então ele mesmo resolveu o assunto. Pediu que eu avisasse, assim ele não atrapalharia. 

Passei a comunicar e ele fica no quarto dele até que eu apareça e libere a circulação. E ainda me pergunta: ‘Vocês namoraram bastante? O papai está legal?’. 

Outra situação que ele resolveu foi quanto à sua própria privacidade. Meu marido me pediu para tomar cuidado quando entrasse no quarto dele, porque meu filho está numa fase de se masturbar. 

Fui conversar, e ele resolveu o assunto. Fez uma placa para pendurar na fechadura: num lado, escrito ‘ocupado’, e no outro, ‘livre’. Quando está no ‘ocupado’, bato e espero ele autorizar a minha entrada.”

MIRIAM Os pais não conseguem perceber a presença do filho como um terceiro, diferente deles, e o menino trata de ele mesmo impor a distância necessária e saudável que lhe permita existência própria, conservando sua intimidade e autonomia.

MIGUEL Há uma atrapalhação quanto à privacidade. Se o filho não pode ver os pais “namorando”, eles poderiam “namorar” no quarto, um lugar que não é de todos da família, como a sala. A relação aberta que os pais têm com o filho não suprime a necessidade de privacidade para todos.
ALÊ Existe uma invenção maravilhosa da tecnologia chamada PORTA e CHAVE dizem que isso preserva bastante a privacidade de um casal. Ah sim, querem fazer na sala mesmo assim? Dá um troco para o garoto ir comprar um sorvete que tá resolvido!
E que negócio é esse de colocar um “OCUPADO”? Quer contabilizar quantas vezes seu filho se alivia? Garanto que esse procedimento acrescentará alguns meses a mais de terapia no futuro… tipo, o cara, quando tiver problemas sexuais, contando para o psicologo: “minha mãe me fazia colocar uma plaquina na porta para dizer quando eu estava me masturbando…”. O que você deve fazer nesse caso é bater na porta SEMPRE! E depois de bater dar um tempinho, tipo, vai tomar um suco e depois volta… Não queremos apressar ninguém não é mesmo? Bata sempre na porta, principalmente quando ele estiver estudando com outro amigo. Tem coisas que é melhor não saber…


Ele só usa maconha?

 

“Desde os 13 anos, meu filho mais velho, hoje com 16, dá uns indícios de que fuma maconha. Minhas suspeitas começaram depois que a empregada me contou que ele fuma, fuma, e vai para a escola, sem comer nada. Não acho que fumar maconha seja uma coisa tranqüila, como muita gente hoje em dia, inclusive muitos pais, acham. Tenho medo de que possa estar usando outra droga.

Tento pressionar, mas ele sempre nega. Está fazendo terapia, o terapeuta disse que ele não é viciado, que tem consciência de que precisa parar. Eu evito até dar dinheiro, mas é complicado, porque ele precisa tomar ônibus, comprar lanche.

MIRIAM Estabelecer limites e o grau de independência depende dos valores dos pais e da maturidade do jovem. Centrar o contato no uso de drogas é empobrecedor –ele só vai se abrir se existir conversa sobre outros temas. Deixar clara a posição ajuda o jovem a se localizar sobre o assunto –mesmo se for para contestar. É importante que ele tenha outros adultos de confiança –um professor, o pai do amigo–, para formar uma rede de proteção necessária nessa idade. Não desista. Às vezes, essa conduta é um pedido de ajuda, ele precisa da presença clara de uma autoridade que não recue diante de sua opinião. Arrisque a errar ficando mais perto dele.

MIGUEL A discussão familiar sobre drogas precisa levar em conta necessidades (experimentar, contestar autoridades, relaxar, se integrar ao grupo de amigos); os efeitos de cada droga (relaxam ou estimulam); os riscos (vício, depressão, danos cerebrais). Mas os pais precisam entender as motivações, sem julgamento prévio, e então reorientar essas motivações para hábitos mais saudáveis. É preciso saber da realidade, da extensão, da freqüência, de onde compra, com que dinheiro. É preciso aceitar o filho como ele é e ajudá-lo a ser cada vez mais ele mesmo, livre das pressões dos grupos.
ALÊ Esquece o que o terapeuta diz. Das duas uma: ou ele está protegendo a privacidade do seu filho ou ele também é maconheiro, o que é mais provável. Empregadas sabem muito mais da vida dos filhos que psicólogos e isso é fato.
Seu filho usa drogas. O que fazer se tem que dar dinheiro para onibus e lanche? Duas coisas: Bilhete único e sanduíche feito em casa. Claro que isso provavelmente vai levar ele para a vida do crime, mas SEU dinheiro é que não será usado para essa finalidade, não é mesmo?

Segredos no MSN

“Tenho duas adolescentes em casa e comecei a usar o MSN (que permite mensagens instantâneas por computador) para me comunicar com elas quando estava no trabalho. Aí, um dia, a mais velha, de 15 anos, me contou assim, pelo messenger, que tinha perdido a virgindade. De supetão: 

– Eu e o Marcelinho já transamos, sabia? (Pausa: levei quase meia hora para conseguir voltar a digitar.)

– Pôxa. Não. Como foi? 

– Ah, normal. 

– Quando foi? 

– Há um mês. No dia tal. 

E não colocou nenhum outro detalhe. Eu quis falar com ela pelo telefone, mas ela não topou. Para mim não é fácil ‘teclar’, era difícil colocar os sentimentos no que eu ia escrever.

Também tive problemas com a mais nova. Brigamos on-line porque reclamei quando vi a foto que ela colocou ao lado do próprio nome no MSN, para se identificar. Eram duas meninas se beijando. Resultado: fui bloqueada.”

MIRIAM A filha precisa contar, mas não consegue na frente da mãe. A questão não é informar o que fez ou não, mas compartilhar as experiências e dificuldades. Por outro lado, se está se propondo a participar da vida das filhas, inclusive através de meios tecnológicos avançados, a mãe deve se enquadrar nisso. O MSN não é lugar para dar bronca na filha; ali, ela irá participar de intimidades para as quais talvez não esteja preparada. Ou se confrontar com práticas comuns, como trocar confidências on-line. 

MIGUEL Alguns episódios, importantes e desafiadores, precisam de um lugar de acolhimento e orientação, mas o medo do julgamento dos pais é tão grande que a mensagem chega cifrada –ou à distância, como foi o caso. Para os pais, é difícil passar da posição de mando, na infância dos filhos, à de conselheiros, na adolescência. Continuam a julgar e a ditar o que é certo ou errado. E, quando chega notícia “fora das regras”, se assustam.

ALÊ Ahn… Então… Quem é que paga a conta dessa tal de Internet? Ah, é mesmo! É você, né? Sua filha te bloqueou no MSN? Bad filha, no donut for you! 
Cancela a assinatura da Internet, esse instrumento do demo que leva garotas a perderem a virgindade e se tornarem lésbicas!!!


Negociante precoce


“A diversão da minha filha de dez anos é brincar de negócios. Como as amiguinhas passavam os endereços do messenger numa folha de papel qualquer, ela começou a vender cartões de visitas personalizados. Chegou a ganhar R$ 40, mas teve de parar, porque o colégio não permitia vendas na instituição. 

O que mais me espantou foi que ela controlava tudo com perfeição. Primeiro, estipulava um prazo de entrega, fazia as pessoas assinarem que tinham recebido, depois anotava ‘pago’ numa folhinha de controle. 

Uma amiguinha esqueceu o dinheiro e ela estipulou um prazo de pagamento. Como ainda não sabe o que são juros, disse que, se ela não trouxesse até tal dia, pagaria com multa! 

Ficamos espantados, pois nunca ensinamos nada disso. Atualmente, ela gosta de brincar com notas fiscais velhas, que o pai traz para casa, e diz que é dona do Carrefour. 

Vive mexendo no Excel (programa de planilhas por computador) para fingir que está controlando suas compras.”

MIRIAM Nesse caso, a surpresa é com a revelação de modos de funcionamento próprio da criança. Cabe aos pais acolher esse estilo, contextualizando e discutindo, por exemplo, outros valores, afora os estritamente comerciais. Esse interesse pode ser bom e canalizado para outras áreas, como a matemática. Os pais devem considerar que nem tudo o que a criança sabe foi ensinado por eles, há outros mundos que influenciam a aprendizagem e os valores, como a escola e os amigos.

MIGUEL A mãe se assusta com o conhecimento da filha sobre como são feitas as transações comerciais, mas diz que o pai leva notas fiscais antigas para casa. Ou seja, ele tem seu negócio em casa ou leva negócios para casa. Criança observa e aprende. Nós nos assustamos com o conhecimento que os filhos exibem e que não foram formalmente ensinados nem pelos pais nem nas escolas. No entanto, a maior parte do conhecimento que usamos para viver vem do viver, não da escola.
ALÊ Parabéns, você já mostrou que sua filha é um gênio, já se exibiu e vai poder levar a revista no trabalho para exibir para todos os colegas como a filha é um prodígio. Próximo.

Romeu e Julieta aos 5

“Ando assustada com meu filho João, de cinco anos, e seus fortes sentimentos pela ‘namorada’. A Juju é filha de uma amiga minha e, como engravidamos na mesma época, sempre brincamos que os dois seriam namorados. E o meu filho cresceu vidrado na Juju. No aniversário de dois anos dela, ele começou a chorar falando que queria casar com ela –para ele, era simplesmente andar de mãos dadas. É óbvio que ela nem lhe deu bola… 

Minha amiga se mudou para Salvador, mas o moleque não esquece. Outro dia, eu disse que ela estava muito longe e que ele deveria arrumar uma ‘namorada’ aqui. Ele pensou alguns segundos, rodou o dedinho em volta da orelha e me devolveu: 

– Mãe, ficou doida, é? Onde já se viu namorar duas ao mesmo tempo?

Fui obrigada a concordar… Na última tentativa, falei que a Juju já havia arrumado outro em Salvador, e ele me respondeu: 

– Não vou namorar mais ninguém… Ela desistiu de mim depois do trabalho que eu tive! 

E eu, curiosa: — Que trabalho? 

– Ligar, mandar flores, presentes… Bem, vou tentar só mais uma vez, mas dessa vez preciso escolher direito!

Não sei se o João vai continuar assim quando crescer, mas ficamos chocados com a ‘seriedade’ com que ele trata esse assunto. Ele tem uns galanteios próprios dele –que nunca ensinamos–, como falar para a vizinha de 50 anos, no elevador, que estava com tanta saudade dela que até sonhou…”

MIRIAM É preciso considerar o quanto o menino foi e é estimulado a se comportar como o homem ideal que agrada às mulheres e a quem ele agrada ou já agradou assim. As crianças captam as aspirações dos pais e procuram conquistá-los. A mãe diz a ele para “arrumar uma namorada aqui”: seria resposta interessante para um adolescente, mas não indica ao menino que ele ainda é criança e que não precisa se preocupar com namoro agora, mas sim com brincar e fazer amigos.

MIGUEL A mãe se assusta porque não entende como uma criança possa ter um envolvimento afetivo tão profundo com outra pessoa da mesma idade, mas não se assusta que mantenha isso com os pais. Ora, o envolvimento com a menina foi incentivado desde o nascimento. É provável que ele só estivesse querendo corresponder às expectativas da mãe. E, por não acreditar na possibilidade desse amor infantil, a mãe diz que a menina já tem outro namorado. Maldade, não é? Não intencional, claro, mas deve ter magoado bastante.
ALÊ Cara, o moleque tem 5 ANOS!!! Com essa paranóia toda daqui a pouco vai dizer para ele colocar uma plaquinha no quarto quando for se masturbar! Dá um boneco do Bob Esponja para ele e pronto!

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