Sin City comentado por alguém que gosta de quadrinhos e cinema…
Publicado por alehiguchi em 07/08/2005
Posted by Alexandre Kojima Higuchi on Aug 7, ’05 12:00 PM for everyone

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Movies |
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Other |
Quando pergunto para alguém se gostou do Sin City, em geral o que escuto é algo do tipo: “Não conheço os quadrinhos, mas…” acrescido de um “gostei/não gostei”.
Bem, eu gosto de cinema e assisti Sin City. Eu gosto de quadrinhos e li Sin City.
Então acho que devo falar um pouquinho a respeito…
De início, digo que o filme atendeu minhas expectativas: ele é um bom filme, dirigido por diretores competentes, atores competentes e uma boa história.
Creio que os pontos principais aqui são:
- História:
Frank Miller é um dos nomes fortes dos quadrinhos. Daqueles obrigatórios mesmo para iniciantes. Um dos poucos que escreve e desenha suas histórias.
Dito isto, se isolarmos roteiro de desenho, ele não é o melhor roteirista nem o melhor desenhista, mas ainda assim estando muito acima da média.
Nesse contexto, o Sin City como história em quadrinhos não é o melhor trabalho dele. Seria, caso fosse um dos primeiros trabalhos. Porém sendo um dos últimos, a história dá sinais de repetição de outros trabalhos. Excelente mas não inova.
São sempre os mesmos personagens: o bruto duro na queda, o corrupto sem escrúpulos, a mocinha curvilínea e durona… É possível fazer uma lista de personagens que tem essa caracterísctica em trabalhos anteriores (Cavaleiro das Trevas, Electra Assassina, Ronin…) o que causa uma estranha impressão de “já li esse personagem antes”.
Porém ainda assim ela apresenta qualidade. Não inova, mas tem qualidade.
- Recursos visuais
Ah sim, os tão falados recursos visuais. Sim, eles são belos. Porém creio que foram superestimados pela mídia. Sempre é bom ver alguém fazer algo diferente porém não é uma inovação, muito menos revolução.
O filme “Capitão Sky e o Mundo de amanhã” já usava de artifícios do tipo e foi o primeiro realizado completamente sem cenário. Até a ambientação, clima noir, efeitos de preto e branco e efeitos envelhecimento do filme remetem ao Sin City. E ninguém na imprensa fez tanto alarde assim.
- Tarantino
Dirige uma pequena cena. Difícil saber exatamente qual mas fácil de dizer “é uma dessas aqui”. Amigo de Robert Rodrigues e se eles realmente não fossem tão amigos assim, cheiraria a golpe de marketing (“coloca aí que Tarantino dirigiu que atrai mais gente”).
- Adaptação para o cinema
Adaptações de HQ para cinema sempre sofrem. Não pela mudança de mídia, pois é normal que algo se perca. Sofrem pelo dedo dos produtores, que conseguem estragar ótimas histórias para que o filme seja mais abrangente, para a família inteira…
O problema aqui é que filmes tem que render muita grana. Para isso, produtores sempre exigem coisas do tipo: “coloca uma criança, para o publico infantil se identificar…”. O maior exemplo disso é o filme “A Liga Extraordinária”, que conseguiram estragar de ponta a ponta. Tom Sawyer foi enxertado na história somente para trazer apelo ao publico americano, uma vez que só tinham personagens europeus…
Quadrinhos não precisam disso. O público dos quadrinhos é segmentado e portanto as histórias não precisam agradar tanto o vovô quanto o netinho.
Ao não fazer concessão nenhuma, o filme ficou um ótimo filme.
Ué? Mas se Sin City não é a melhor HQ do Frank Miller?
Não, mas ainda assim é uma ótima história. E até uma HQ mediana supera longe um roteiro de cinema mediano.
Porém ao ser uma adaptação fiel dos quadrinhos, por não ter concessões, o filme sofre do problema de transição de linguagem de mídia. Eu explico.
Nos quadrinhos usa-se muito narração em off, ou seja, o personagem narra o que acontece para o leitor, como se o leitor lesse os pensamentos do personagem.
Em cinema isso se resolve colocando um outro personagem como contraponto, para que o personagem principal dialogue e explique o que está acontecendo e com isso o expectador também fica ciente.
No Sin City, por não poder usar esse recurso, usaram do voice over, da narração em off. E isso torna o filme cansativo em determinados momentos.
Outro problema, esse típico do Frank Miller, é exagerar em metáforas e comparações. Coisa do tipo: “Sin City é uma prostituta pedindo para ser currada”, “Ele fedia como um porco suado em um chiqueiro cheio” e por aí vai. Isso cola nos quadrinhos, pois não dá para detalhar muito no desenho portanto deve-se usar a imaginação do leitor.
No filme, quase toda vez que um local ou um personagem aparece, vem junto uma metáfora ou uma comparação, porém nesse caso podemos ver o personagem e cenário com detalhes, os mesmos tem som, tem movimento… Não seria necessário descrever ou comparar.
- Filme como um marco no cinema
Sin City é um daqueles filmes que você tem que saber o que vai assistir. Se a única referência é algo do tipo “ah, disseram que é legal”, cuidado!
O problema é que a imprensa de tempos em tempos elege um “queridinho” e foi o que aconteceu com Sin City. Muito barulho, muita falação.
Aconteceu a mesma coisa com outros filmes como “O guia do mochileiro das galáxias” ou então “O Clã das Adagas Voadoras”. Muito barulho e fez com que as pessoas fossem ao cinema sem saber direito o que iriam encontrar. E a maioria não gostou do que viu. Um contra-exemplo é o “Vida Marinha com Steve Zissou”, que apenas quem gosta do estilo ficou sabendo da existência. Então não teve apedrejamento em praca pública.
O grande marco aqui foi que fizeram uma história 100% fiel aos quadrinhos. E isso vai dar força para que diretores a partir de agora tenham mais poder para impedir que produtores coloquem muito o dedo e desfigurem a obra original.
Particularmente, eu adoraria se ele tivesse sido lançado *antes* do Homem-Aranha. Seria uma história muito mais sombria ver Mary Jane (na verdade, Gwen Stacy), ao ser jogada da ponte pelo Duende Verde e com a tentativa desesperada do Homem Aranha jogar uma teia para salvá-la, ter seu pescoço partido e morrer com o impacto da teia freando a queda.