Alexandre Higuchi

A Vida, o Universo e Tudo mais

Watchmen, o Filme – Quem irá gostar?

Posted by alehiguchi em 08/03/2009

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A mancha de sague no smiley do comediante forma um ponteiro de relógio. O Dr. Manhatan usa cada vez menos roupas como metáfora ao seu desapego pela sociedade. A máscara de Rorschach é preta e branca, sem tons de cinza, pois é assim que ele vê o mundo. A quantidade de metáforas e referências escondidas nos quadrinhos de Watchmen beira o insano.

E isso faz com que o único diretor da história do cinema capaz de filmar a HQ seja Stanley Kubrick. O desgraçado tinha a pachorra de colocar, em uma estante com algumas dezenas de produtos de supermercado usada como cenário, um molho de tomate com a figura de um índio. O único produto, no meio de dezenas de produtos reais, que não existia. E só para aparecer de relance em uma única cena, fora do plano principal. Pois é: você sabia que “O Iluminado” pode ser visto como um filme sobre a repressão do branco sobre o índio? Mind fucking, não?!?

Porém Kubrick está morto e a tarefa caiu para Zack Snyder. Que faz um excelente filme. Mas ele não é Kubrick. Ninguém é.

E ele faz o melhor possível. Lutou e conseguiu evitar que Watchmen se tornasse um filme-família ambientado nos dias atuais, o que garantiria um lucro dezenas de vezes superior (o Mc Donalds não irá dar bonequinhos azuis de brinde) porém distanciando do respeito que a HQ merece.

O filme ficou bom. Snyder acerta na ambientação dos anos 80. Não é como estar assistindo um filme dos anos 80. É como assistir um filme *nos* anos 80. Ele conseguiu reproduzir o efeito da película com variação de cor e luminosidade característico da tecnologia de 25 anos atrás. Ele reproduz maneirismos de camera e enquadramento da mesma maneira que naquela década. Idem para a trilha sonora, apesar de um tanto esquizofrência (música religiosa em uma cena de sexo é algo duvidoso).

Também dá para entender as concessões feitas para que o filme não estoure as 2h43 que dura. Por exemplo, manter o final original requer adicionar mais personagens, uma missão extra do Comediante e uma ilha. Fazer com que o Coruja tivesse a mesma atitude dos quadrinhos na cena final iria exigir uma construção mais elaborada do personagem e de suas motivações.

Mas como disse, Snyder não é Kubrick e erra a mão em alguns momentos. Falha em construir climas e momentos de tensão em algumas cenas e a maioria dos personagens estão mal interpretados (Pedro Cardoso como Ozymandias foi o fundo do poço). Felizmente Rorschach está excelente. Também erra a mão em explicar muito literalmente alguns pontos, subestimando a inteligência do espectador. E também escapa a Snyder detalhes como a máscara de Rorschach, que no filme assume tons de cinza.

Dessa maneira, minha leitura do filme é positiva, pois considero que não existe diretor vivo capaz de fazer o filme perfeito do Watchmen.

Porém o filme mudou o bastante para enfurecer os fâs mas não o bastante para cair no gosto do público geral, adicionando o fato que ao se deparar com o proposital efeito do fotograma com variações cromáticas, irá confundir com desleixo e má qualidade.

Assim a pergunta que fica é: quem é que vai apreciar o filme?

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